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Entre a cautela e o otimismo
Com a crise financeira mundial dando seus primeiros sinais no Brasil, entidades e empresas ligadas ao setor imobiliário dizem que o momento requer prudência. Mas há uma unanimidade entre empresários e especialistas: Distrito Federal não sofrerá grande impacto
Silvana Amaral
samaral@jornalcoletivo.com.br
No Brasil os primeiros sinais da crise financeira mundial já são visíveis e sentidos em alguns setores da economia. Destes, o imobiliário, que acumulava os melhores resultados dos últimos 20 anos, está sob o olhar atento de investidores, empresários, entidades ligadas ao setor, do governo e dos mutuários, que anseiam por realizar o sonho da casa própria. O desassossego que assola o mercado nacional é decorrente do receio de que se reproduza no Brasil a crise imobiliária que acometeu os Estados Unidos e deu origem a uma crise mais ampla no mercado de crédito mundial.
Em 2001, o mercado imobiliário americano teve um desenvolvimento acelerado, logo depois da crise das empresas pontocom. Os juros do Federal Reserve (Fed, o BC americano) foram caindo gradativamente para que a economia se recuperasse. O setor imobiliário, atento à nova fase econômica de taxas baixas de juros nos financiamentos imobiliários e nas hipotecas, aproveitou para alavancar suas vendas. Para se ter uma idéia, em 2003 os juros do Fed foram de 1% ao ano.
Em 2005, o setor atingiu o apogeu e, com o boom do mercado imobiliário que sinalizava a expectativa de valorização dos imóveis, faz aumentar os investimentos no setor. As financeiras especializadas no setor imobiliário, para aproveitar o bom momento, começaram a liberar empréstimos para o segmento subprime (clientes de renda baixa e reincidentes na lista de inadimplência) sem garantias de pagamento. O resultado foi o colapso na economia do país.
Apesar da preocupação dos brasileiros em relação ao mercado imobiliário, empresários e órgãos ligados ao setor no país e no DF dizem que a crise é mundial, real, e que o momento requer atenção, mas não deverá abalar gravemente o mercado nacional e o local.
Adalberto Kléber Valadão, presidente da Associação das Empresas do Mercado Imobiliário (ADEMI), admite que a crise atinge o Brasil e o setor imobiliário, mas sem grandes danos. “A crise financeira existe, é clara, mundial e, naturalmente, terá reflexos no mercado brasileiro. O segmento imobiliário, que vem de um excelente momento, será o menos atingido. O motivo é o mercado nacional consolidado, com uma legislação rigorosa que regulamenta as linhas de crédito evitando a retração dos empréstimos”, pondera Valadão.
Para o presidente da ADEMI, nesse primeiro momento o mercado passará por uma fase de acomodação, o que é normal diante de qualquer crise. “As pessoas tendem a estudar melhor a compra, fazendo com que, a curto prazo, haja uma redução nas vendas. Mas assim que as coisas ficarem compreensíveis as pessoas voltarão a comprar normalmente. Existe um déficit habitacional enorme no DF”, aposta.
Em relação aos riscos para o mercado local, eles são mínimos, garantem os especialistas. Para Valadão, a possibilidade de o setor local correr perigo é bem menor do que em outros estados da Federação devido a diversos fatores que dão estabilidade.
“O mercado de Brasília é atípico em relação aos demais do país. Além da demanda reprimida por moradias, a maioria das construtoras da capital trabalha com autofinanciamento. O alto poder aquisitivo dos brasilienses, fortalecido pelos servidores públicos, dá segurança ao mercado. O Brasil, e especialmente Brasília, não terá seus mercados imobiliários muito afetados. Apesar disso, a crise existe e não podemos fechar os olhos para ela”, salienta.
Crise para uns, oportunidades para outros
Geraldo Martins, consultor imobiliário, diz que Brasília vive seu melhor momento nos cenários nacional e internacional, sendo visada por empresas de médio e grande porte. “O mercado oferece inúmeros empreendimentos com completas áreas de lazer e a segurança dos condomínios fechados para as diversas classes sociais. Com a turbulência econômica, hoje é muito mais seguro investir em imóveis do que na Bolsa de Valores. A aplicação em imóveis é sólida e segura e o déficit habitacional, uma realidade. Empresas do eixo Rio-São Paulo estão investindo pesado e trazendo empreendimentos para o DF”, salienta Martins.
O consultor diz aos mais preocupados que a médio e longo prazo o setor não corre o risco de um colapso econômico. “Existe uma grande parceria entre bancos e construtoras “Os bancos continuam oferecendo facilidades de financiamento para o setor imobiliário em função das garantias de pagamento. Na capital o servidor público é um dos segmentos que mais movimentam o setor. As linhas de crédito são liberadas mediante uma série de normas e exigências que reduzem o risco de inadimplência e garantem a estabilidade econômica”, pontua.
Arnaldo Frattini, do Grupo Eugênio, maior agência de marketing imobiliário do país, que uniu forças com a MGarzon, formando a MGarzon, Eugênio Empreendimentos Imobiliários, diz que Brasília possui características próprias e é considerada a jóia da coroa do setor. “No DF o mercado apresenta-se mais complexo quando o assunto é desenvolvimento de negócios, porém, na questão da venda de empreendimentos, ela não deixa a desejar, pois apresenta um poder de compra sustentável. Depois de São Paulo, é a cidade que mais cresce nesse setor”.
Para Frattini, a questão dos juros no setor imobiliário é momentânea. “Os índices inflacionados estão num patamar que não apresenta perigo e macule a imagem do setor no cenário nacional”, analisa.
Pedro Fernandes, diretor da Associação Brasileira do Mercado Imobiliário (ABMI) e diretor comercial da Beiramar Imóveis, comenta que o mercado acaba sentindo os efeitos da crise. O setor no DF que apresenta características próprias sentirá menos seus efeitos. Pedro conta que muitos investidores de outros setores estão e vão migrar para o mercado imobiliário em busca de ganhos e vão atingir seus objetivos, pois a crise econômica e imobiliária que se instalou nos Estados Unidos não vai se repetir aqui no Brasil por uma série de motivos.
O mercado imobiliário americano disponibilizou grande oferta de crédito sem nenhuma regulamentação ou garantias de pagamento. Devido às facilidades, houve um crescimento acelerado por linhas de crédito e por novas hipotecas a fim de usar o dinheiro do financiamento para quitar dívidas e, também, gastar com outras finalidades, desencadeando a crise imobiliária”, explica.
No Brasil acontece o oposto, comenta o empresário. “Existem critérios e regulamentações rígidas para análise e aprovação de crédito. Outro fator de peso é a alienação fiduciária, que permite ao banco ou instituição financeira retomar o imóvel em caso de inadimplência num período de 90 dias. E na capital o alto número de servidores públicos, conjugado ao fato de ser a quarta maior população e o maior PIB do país, é outra garantia para o mercado”, enumera o empresário.
Tantas garantias colocam o mercado imobiliário do DF em uma posição privilegiada e segura em meio às oscilações do mercado de ações da Bolsa de Valores e da economia interna e externa. Com isso, os construtores e empresários ligados ao setor estão otimistas e apostam nos lançamentos destinados às classes C, D e E. Para Pedro, as cidades de Samambaia, Ceilândia e Gama estão se transformando nos grandes pólos da construção civil. Águas Claras, por sua vez, continuará no processo de valorização.
“A estimativa para Águas Claras é de crescimento de 20% no metro quadrado, que hoje custa R$ 3 mil, mas deve ir de R$ 3,5 mil a R$ 4 mil até o início de 2009. Encomendamos uma pesquisa à Urban Systens Brasil, de São Paulo, que nos revelou o potencial e a valorização dessas regiões ao redor do Plano Piloto. A cada dia chegam novos habitantes na capital que precisam de moradias. Com o inchaço populacional de Brasília, a cidade se expande em direção às regiões satélites e do Entorno”, explica. “O mercado imobiliário é um investimento seguro e confiável. Diversos clientes da Beiramar estão retirando seus investimentos da Bolsa para empregar em imóveis”, comemora.
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