Construtora Gafisa voltada empreendimentos populares
A construtora compra a Tenda, voltada para a baixa renda. Não é a primeira (e não será a última) movimentação do setor a previsão do tempo para a construção civil no País não é boa. Espera-se uma fase de instabilidade, com chuvas fortes e possibilidade de trovoadas.
No final, somente as empresas com telhados firmes irão sobreviver e, neste caso, deverão estar mais robustas por conta de aquisições e fusões com empresas menores.
A metáfora acima explica um bocado por que a Gafisa, uma das maiores incorporadoras do País, voltada para as classes A e B, anunciou na segunda 1º, a aquisição de 60% do capital da Tenda, empresa com foco no mercado popular de imóveis fundada pelo empresário mineiro Henrique Alves Pinto.
A operação consistiu numa troca de ações e num aporte de R$ 420 milhões da Gafisa na Tenda, através de sua subsidiária FIT, que atua no segmento de baixa renda, aquele com oferta de imóveis no valor médio de R$ 80 mil.
"Esta não foi uma compra oportunística, mas estratégica", afirmou o presidente da Gafisa, Wilson Amaral, por diversas vezes durante conferência com investidores na semana passada.
Pode ser, mas a aquisição acontece justamente quando diversas empresas do setor enfrentam dificuldades. O cenário de nuvens pesadas surge menos de dois anos depois de 28 incorporadoras e construtoras abrirem capital na Bovespa. Mas o dinheiro arrecadado na festa dos IPOs secou na maioria delas.
"Agora, o mercado de capitais está mais seletivo e há mais pressão sobre os custos de construção", diz Eduardo Silveira, analista da Fator Corretora. "Os bancos tiraram o pé do acelerador em relação à concessão de créditos ao setor."
Um dos sinais desse momento é que o endividamento das empresas do setor, no primeiro semestre de 2007, cresceu quase 120% em relação ao mesmo período do ano passado. Mais: apenas oito das 28 incorporadoras e construtoras apresentam hoje rentabilidade nominal positiva em relação ao período de realização do IPO.
O caso da Tenda é ilustrativo do mau humor do mercado em relação às companhias de construção civil. Os bancos de investimento rebaixaram a avaliação das ações da Tenda diversas vezes nas últimas semanas. Além disso, um analista do Credit Suisse colocou comentários negativos sobre a empresa em um e-mail que vazou parar investidores.No dia seguinte, a instituição desautorizou o funcionário e o demitiu, mas confirmou a avaliação ruim.
A Tenda também apresenta alto índice de cancelamento de vendas, que seria superior ao da concorrente e também mineira MRV. No total, foram R$ 83 milhões em cancelamentos em 2007. Resultado: o preço das ações da Tenda já caiu 48% desde o IPO.
No meio dessa crise, a Gafisa apareceu com uma proposta e Pinto, da Tenda, fechou o negócio em 48 horas. "Tínhamos duas opções: o crescimento orgânico da FIT ou a associação com alguma empresa bem posicionada no novo segmento. Ficamos com a segunda", diz Amaral. "Este é o segmento de maior potencial de crescimento no País."
Os investidores, porém, reclamaram do modelo da operação. "A empresa vai dormir com um controlador e amanhece com outro", disseram os analistas, durante a conferência do dia 1º. Para eles, os acionistas minoritários da Tenda foram prejudicados com o negócio, que contraria as regras do Novo Mercado. "Ninguém foi prejudicado", garantiu Amaral.
O presidente da Gafisa reconheceu, em entrevista à DINHEIRO, que a tensão presente no setor não é sem propósito. "Hoje, os balanços de algumas empresas não dão conta das suas obrigações", disse Amaral. Por isso, prevê uma temporada de aquisições: ele não descarta a possibilidade de comprar outras empresas e acredita que, mesmo se a Gafisa não o fizer, o mercado irá absorver as empresas que enfrentarem dificuldades.
"Tem gente, por exemplo, comprando terreno (para construção) com dinheiro vivo e não na forma de permuta, como fazemos", alerta ele. Já é corrente no mercado a informação sobre a falta de caixa de algumas empresas por conta desta estratégia, embora o mercado esteja em franco crescimento.
Segundo o Secovi, sindicato das empresas de venda de imóveis do Estado, o número de novos imóveis vendidos no Estado de São Paulo cresceu 33% no primeiro semestre deste ano. O problema é que as companhias do setor torraram seus caixas no curto prazo, com a compra de terrenos, e recebem a médio prazo, com as prestações dos imóveis vendidos.
"O ciclo de produção do setor é em média de três anos e pode faltar capital de giro", avalia Silveira. O diretor do Secovi Celso Petrucci afirma que estamos em pleno ciclo que levará a diversas fusões no setor. A temporada foi aberta com a PDG Realty, que adquiriu a construtora Adolpho Lindenberg, em abril deste ano. Depois veio a Cyrella que comprou a Agra, em junho último.
"Depois de 2005, as empresas se capitalizaram na Bolsa, a classe média ganhou força no País e surgiu a oferta maior de créditos oriundos da caderneta de poupança e do FGTS", diz Petrucci. "O mercado aqueceu, mas vai passar por uma depuração." Ele observa que nos Estados Unidos e no México, mercados mais avançados do que o brasileiro, há apenas de oito a dez incorporadoras cotadas em Bolsa. No Brasil, são mais do que o dobro. Não haverá espaço para todo mundo.
Istoé Dinheiro
- 2003 leituras

